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10 ª Assembleia do Povo Deni – Deni Muth

10 ª Assembleia do Povo Deni – Deni Muth
18 de setembro de 2015 zweiarts

Entre os dias 20 e 24 de agosto de 2015 os Deni realizaram a sua 10 ª assembleia da Associação ASPODEX (Associação do Povo Deni do rio Xeruã, Amazonas). Tiveram o privilégio de participar desta assembleia, a antiga equipe do COMIN, um técnico do INPA e uma engenheira alemã de energia renovável. A referida equipe se deslocou do dia 03 ao dia 28 de agosto para fazer a manutenção dos 10 equipamentos de desinfecção de água, realizados através de energia solar, instalados desde 2008, nas 7 aldeias Deni e Kanamari daquela região. Na oportunidade, foi instalado na boca do Xeruã mais um conjunto de desinfecção de água, na casa da vigilância da Terra Indígena Deni, com recursos da Obra Gustavo Adolfo da Alemanha e da Associação Sonnenwasser Xeruã e. V., de Nieste/Alemanha. Dois anos atrás, a Associação da Alemanha acima mencionada, comprou um barco para o projeto de desinfecção de água. Nesta viagem conseguimos, pela primeira vez, instalar cinco placas solares no barco para o funcionamento de bombas d‘água, iluminação e um pequeno aparelho de desinfecção de água, não necessitando o uso de um gerador.

Nos dias de visita a todas as aldeias Deni e Kanamari, sentimos o prazer de escutar várias vezes, com muito orgulho por parte de jovens e adultos Deni: Deni Mutha – Nós Deni sozinhos somos protagonistas da nossa história.  O COMIN terminou o trabalho direto com os Deni em 2012, depois de 14 anos junto a este povo. A Operação Povos Nativos (OPAN) também tinha terminado o seu projeto naquele mesmo ano. Neste tempo de ausência de ONGs, o povo Deni realizou, sozinho, suas assembleias. Em 2013, a casa flutuante de vigilância na boca do Xeruã afundou e a água do Juruá levou os restos do flutuante rio abaixo. Porém, o povo Deni não desanimou. As quatro aldeias continuaram com a vigilância, construindo primeiramente, uma casinha provisória, e, no ano passado, 2014, uma casa com recursos próprios. As quatro aldeias se revezam periodicamente, de quinze em quinze dias, para ficar à disposição da vigilância da TI em uma casa na terra firme, que substitui o flutuante perdido. Há aproximadamente seis anos atrás foram realizados cursos de manejo de pirarucu pelo COMIN e pela OPAN. Por isso, os Deni continuavam, sozinhos, a realizar a contagem de pirarucu. O acompanhamento destes cursos foi realizado pela OPAN, FLD-Fundação Luterana de Diaconia e pelo COMIN. Já foram contados mais que 1.000 pirarucus adultos no ano passado.

A educação diferenciada

Todos os professores Deni e Kanamari que começaram a estudar no Projeto Pira-Yawara, em 2001, terminaram o magistério indígena com sucesso. Três professores Deni e um Kanamari estudarão pedagogia no núcleo da Universidade Estadual do Amazonas, na cidade amazonense de Itamarati, ainda em 2015. Uma nova turma de professores começará a estudar na mesma cidade no próximo ano, no segundo curso Pira-Yawara, da SEDUC-AM. No rio Xeruã existem atualmente 23 professores contratados, das etnias Deni e Kanamari. Mesmo com esse número de professores nas aldeias, cinco Deni estudam nos colégios de Itamarati. Um deles é o líder Saravi, suplente de vereador naquela cidade, que já concluiu o 9° ano. Depois de uma experiência de dois meses como vereador, na ausência do titular, ele é agora Coordenador de Assuntos Indígenas do município de Itamarati. Seu salário é de míseros R$ 600,00. Todos estes professores falaram na assembleia, que querem aprender para retornar às aldeias com um conhecimento novo da sociedade não indígena. O filho de Saravi, Viatarivi Kuniva Maca Deni, expressou o pensamento de todos que estudam na cidade: “Eu sou estudante indígena na escola Santos Dumont, na cidade de Itamarati, para conhecer a realidade dos não indígenas. Quero aprender como funciona a organização política na sociedade dos não indígenas. Quero trazer novo conhecimento para meu povo. Mas eu não quero esquecer da nossa cultura. Obrigado a todos.“

Uma assembleia com ênfase à cultura Deni

Nós do COMIN acompanhamos as assembleias do povo Deni há dez anos. Cada assembleia traz novidades. As quatro aldeias prepararam, para a assembleia de 2015, músicas, enfeites corporais e danças. As novas músicas e letras falam da união e da associação do povo Deni.  A aldeia Morada Nova apresentou sua música especial para a 10 ª assembleia: Tukhiraria ahi’eza heuniau inina (4x). Arikha associação kamuni ima inihi. Arikha manejo kamuni ima inihi inina. Tukhiraria ahi’eza heuniau inina. Arikha preservação kamuni ima inihi. Conservação kamuni ima inihi inina. Todo mundo fica aqui reunido nesse encontro. Estamos juntos para falar da nossa associação. Estamos juntos para falar do manejo.  Todo mundo fica aqui reunido. Estamos juntos para falar da preservação. Estamos juntos para falar da conservação.  Os Deni mudaram o símbolo da Associação, que era o colar de algodão com dentes de macaco. Eles mudaram o símbolo para o desenho da sua terra, dando ênfase à preservação de sua terra. O símbolo antigo não desapareceu. Ao contrário, eles explicam que antigamente poucos Deni se enfeitavam com o colar dos antigos, agora todos/as usaram o referido colar.

Intercâmbios de culturas

Para a alegria dos Deni, a OPAN voltou com um projeto de manejo de pirarucu, e para a RDS Uacari, do município de Carauari-AM, com um projeto de extrativismo. Esta Reserva de Desenvolvimento Sustentável faz limite com o território do povo Deni. A equipe Deni do CIMI, que no passado ficava no município de Tefé e Carauari, agora se instalará na cidade de Itamarati, que fica bem mais próxima da terra dos Deni. A experiência com pirarucus é tão positiva que, em 2016, já podem ser comercializados os primeiros pirarucus dos lagos do rio Xeruã. Os Deni conseguem se apropriar de novidades da sociedade não indígena sem perder o orgulho da sua própria cultura e do zelo por sua terra. “Culturas zelem por suas peculiaridades; e que essa disposição é saudável, e não como gostariam de fazer-nos crer – patológica. Cada cultura desenvolve-se graças a seus intercâmbios com outras culturas. Mas é necessário que cada um oponha certa resistência a isso, caso contrário, logo não terá mais nada que seja de sua propriedade particular para trocar. A ausência e o excesso de comunicação têm, um e outro, seus riscos“ (Claude Lévi- Strauss, Didier Eribon, De perto e de longe, p.211).

A SESAI do DSEI, Médio Solimões e Afluentes conseguiu, em três aldeias Deni e Kanamari do Xeuã, instalar poços de água com energia solar. Assim podemos, com a ajuda da Associação SonnenwasserXeruã, levar o equipamento de desinfecção de água destas três aldeias, em 2016, para as aldeias Kulina e Kanamari no município de Carauari-AM. No INPA em Manaus já desenvolvemos melhorias para os conjuntos solares que aplicamos nesta viagem e estamos continuando a pesquisar.

Dois dias antes da assembleia aconteceu a olimpíada com jogos de futebol, corridas para homens e mulheres, competições de arco e flecha e de zarabatana. No final da assembleia, foram feitas as cartas de reivindicações de melhorias na saúde e na educação. Os Kulina da aldeia Matatibem do rio Ere, município de Carauari-AM, participaram da assembleia e pediram o apoio para a demarcação da sua terra. A assembleia apoiou o pedido e encaminhou uma carta à FUNAI.

Em um dos intervalos, um homem, um contador de mitos Deni, sentou-se no centro e contou o mito do shabira, o mito da ariranha. Todo mundo escutou, completava com comentários e ria, como acontece durante as noites nas aldeias, quando as pessoas mais idosas contam os mitos Deni. Os professores gostariam de ter a publicação de uma segunda edição dos mitos Deni, que, em 2004, contou com a elaboração do COMIN. Jovens com celulares gravaram o mito, e gravaram as músicas e depoimentos durante a assembleia. Boaventura de Souza Santos falou bem: É preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza.

Walter Sass, Manaus, em agosto de 2015.

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