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1º Curso de Introdução ao Manejo de Lagos, Desenvolvimento Sustentável e Mudanças Climáticas na aldeia Deni do rio Xeruã-Itamarati-AM
03/06/2009 - Informes

Nos dias 21 a 25 de maio de 2009 foi realizada mais uma atividade do COMIN de Carauari dentro do projeto "Manejo de Lagos", aprovado pelo EED da Alemanha e pela Fundação Luterana de Diaconia da IECLB. O projeto prevê cursos preparatórios no período de 2009 até o final de 2011. Participaram deste curso 46 indígenas das 4 aldeias Deni do rio Xeruã de Itamarati-AM (Itaúba, Boiador), Morada Nova e Terra Nova) e representantes Kanamari de 4 aldeias do rio Xeruã e do rio Juruá (Flexal, Curabi, Irmãos Unidos e Bacu). O curso foi ministrado pelo ex-secretrário de meio ambiente de Carauari-AM, técnico em química ambiental, Nelson José Batista Lacerda. O projeto de manejo de lagos no rio Xeruã, com a preservação e futura comercialização do peixe pirarucu, é discutido há anos pelo povo Deni.

O curso começou com o esclarecimento de palavras-chave para a realização deste projeto como ecologia, manejo, aquicultura, piscicultura, fauna, flora, ictiofauna, água doce e salgada, poluição, vegetação primária e secundária, biodiversidade, preservação e conservação, desenvolvimento sustentável, biologia do pirarucu, mudanças climáticas e mapeamento dos lagos.

Foi destacado o conceito de desenvolvimento sustentável que está em moda no mundo inteiro. O desenvolvimento sustentável tem que equilibrar três partes essenciais: o meio ambiente bom, uma renda boa e uma boa qualidade de vida da comunidade, representados oficialmente como sendo ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável. Se alguma das três partes ficarem ruins não se pode falar em desenvolvimento sustentável.

O manejo de lagos dentro deste desenvolvimento sustentável é a retirada organizada de um determinado recurso natural, no caso dos Deni, do pirarucu. Trabalhos em grupos discutiram como se pescava e fazia manejo de lagos, de caça e do roçado antes da chegada dos não-indígenas, na chegada dos não-indígenas e como se pesca hoje em dia. Antigamente tinha muito peixe e pescava-se com anzol de osso e cipó, arco e flecha, arpão de madeira e com armadilhas de cestos. Usava-se sempre o veneno, vekama, que tem um efeito de poucas horas e não mata os peixes. Sempre se mudava o lugar de pescaria, após semanas e/ou anos. Todo mundo vivia sossegado e pescava somente para se alimentar.

Com a chegada dos não-indígenas acabaram os peixes e os quelônios. Com a demarcação da terra indígena dos Deni e Kanamari voltaram os peixes e os quelônios. Os Deni e os Kanamari estão conscientes da importância da preservação dos lagos e das praias. Há vigilantes Deni na casa flutuante na boca do rio Xeruã o ano todo para que nenhum peixeiro não-indígena entre na área indígena. Cursos e apoios do CIMI, FUNAI, PPTAL, OPAN e COMIN ajudaram muito a criar uma consciência da preservação dos lagos. Cada comunidade Deni das 4 aldeias já reservou há dois anos lagos de conservação, quer dizer, nestes lagos eles não pescam.

Os Deni e Kanamari constataram que os seus antepassados conservaram a natureza (assim ainda hoje!) com um manejo de caça, de roçado e de peixe. O conceito de manejo e desenvolvimento sustentável não é um conceito estranho para as comunidades indígenas. Nas pescarias mudava-se anualmente o lugar da retirada dos peixes. Os roçados mudavam e ainda mudam de dois em dois anos. Nestes roçados velhos planta-se somente depois de dez ou mais anos. Antigamente caçava-se muito com a zarabatana e não havia preocupação com quantidade, pois havia muita caça e as aldeias mudavam de lugar de cinco em cinco anos.

Hoje não se muda mais o lugar das aldeias. Mesmo assim, até hoje, os Deni e Kanamari praticam manejo e se preocupam até mais do que antigamente com o manejo de caça, peixe e roçado, não matando animais que estejam prenhas, cuidando das praias e preservando os quelônios. Os grupos, tanto os Deni quanto os Kanamari, abordaram o aspecto religioso no cuidado da natureza. Eles cantam para os espíritos de peixe, de caça e de plantas, antes de irem à caça, à pescaria e antes de queimar e plantar no roçado. Os Kanamari relataram que havia um canto, antes da derrubada, para que as árvores caíssem e não ficassem zangadas, "pediam autorização das árvores para a queimada".

Os jovens Kanamari lamentam que estejam esquecendo de pintar o rosto e de cantar antes da plantação no novo roçado. Contudo, mesmo com todas as mudanças ocorridas e o sofrimento passado e atual, todos os participantes manifestaram que os povos indígenas eram e são os verdadeiros "guardiões da floresta".

Uma tarde inteira foi dedicada ao estudo da biologia do pirarucu (tupi-guarani/ pira-peixe, urucu-vermelho, nome científico arapaima gigas), que será o principal ator no manejo dos 169 lagos dos Deni do rio Xeruã. O pirarucu é carnívoro de grande porte, chegando a mais de 2 metros e 200 quilos. Ele não migra, preferindo os lagos. Ele tem respiração aérea e tem de vir à tona em 40 minutos. A maturação é de 4 a 5 anos, medindo então acima de 1,50 metros. A pesca, venda e comercialização é proibida e só pode ser feita com a autorização do IBAMA através de manejo. Os Deni esperam começar com esta fase daqui a três anos.

Estudou-se ainda o processo de implantação do programa de manejo de pesca. O manejo do pescado não se faz individualmente e nem em locais em que não estejam organizados em associação. Os Deni perceberam a importância da sua associação que foi fundada em 2007. A diretoria da associação pronunciou-se a respeito de trabalhar em prol da comunidade toda para melhorar a vida de todos.

Um ponto alto do curso foi a visita dos participantes a um lago mais próximo, para uma demonstração prática simulada de captura de pirarucu e manejo de lago. Os participantes, munidos com caderno e lápis, ouviram no local uma palestra sobre a importância do ecossistema do lago, observando as frutas na margem do lago (vegetação primária), que são alimento para muitos peixes.

O curso terminou com a introdução ao tema das mudanças climáticas e a importância do manejo e da proteção e conservação do meio ambiente para o clima mundial. Ficou claro para os indígenas que eles não são os culpados pelas mudanças climáticas. Eles foram e são até hoje "guardiões da floresta", fazem sua parte importante e ainda não recebem muito apoio mundial para que mudanças climáticas piores não aconteçam.

Foi lido e discutido o texto de Saravi Deni (liderança da aldeia Morada Nova, rio Xeruã) que ele escreveu para a Federação Luterana Mundial em Genebra, no qual constam as mudanças já sentidas na área Deni.

Na nossa região do rio Xeruã, no interior do Estado do Amazonas, há realmente nos últimos anos uma mudança do clima. Nós temos duas estações durante o ano: a época de chuva e a época de seca. Antigamente tinha três meses de seca, de junho a agosto. Hoje em dia está chovendo de vez em quando nestes três meses. Também tinha somente nestes meses alguns dias de friagem. Agora já têm dias de friagem bem antes da época de seca. O sol está mais quente. Em abril deste ano já começou a baixar muito o nível de água do nosso rio e já têm os primeiros sinais de praias. Isto não acontecia antigamente. Em 2005 tinha uma seca bem forte. Quando botamos fogo nos nossos roçados, no início do mês de setembro, o fogo normalmente pára na mata virgem. Mas em 2005 o fogo foi além dos roçados. O fogo se alastrava muitos dias no chão através das folhas secas por muitos quilômetros dentro da mata virgem. Isto nunca tinha acontecido antes. Nós temos que preservar a nossa mata.

Os Deni avaliam esse projeto como de grande importância para o seu futuro, visando o lado da preservação e da geração de renda. Ficou claro para todos os participantes que o manejo de lagos é um trabalho sério que não se faz em poucos meses. Precisa de um bom tempo de estudos, esclarecimentos e uma boa organização do povo Deni.