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CERÂMICA APURINÃ: DESAFIOS E PERPECTIVAS
17/08/2011 - Informes

Os utensílios (vasos, potes, pratos, copos, etc.) fabricados pelo povo Apurinã a partir da argila remonta a uma prática milenar. Isso diferencia este povo dos outros povos indígenas da Amazônia. Tradicionalmente o trabalho Apurinã com o barro sempre foi uma prática das mulheres. Sabiamente elas passaram esta prática de geração para geração. Mães, filhas e netas sempre trabalharam com barro ou argila que, na língua apurinã é denominado de katxary; todavia, em função de diversos fatores, entre eles o contato com o não-índio, houve uma perda cultural muito grande nos últimos anos. Atualmente esta prática encontra-se em risco de extinção, trazendo extrema preocupação para os Apurinã da T.I Kamicuã. Por esta razão, a comunidade indígena local e o COMIN (Assessoria Acre Sul do Amazonas) realizaram uma oficina de cerâmica. Ela aconteceu entre os dias 25 de julho e 03 de agosto, tendo 15 participantes entre homens e mulheres e até crianças. No primeiro dia tivemos uma conversa de como seria a oficina e de quantos dias duraria. Em seguida deu-se início ao processo de trabalho com a cerâmica. Seu Antônio Apurinã, pajé da aldeia Kamicuã, falou um pouco de como os antigos, como sua mãe, tias e avós, trabalhavam com a cerâmica, como era o processo de buscar o barro no igarapé, quantas pessoas podiam ir. Conforme ele, para se ter uma boa cerâmica (sem rachar durante a queima) não pode amassar o barro quem teve relação sexual na noite anterior, nem mulheres menstruadas ou grávidas. Segundo seu Antônio, geralmente quem sonha na noite anterior com coisas grandes como onça, sucuri, árvores frondosas, etc., quando vai modelar a cerâmica faz peças grandes, e quem sonha com coisas pequenas, como formigas, passarinhos, peixinhos, etc., faz peças pequenas. Para os Apurinã existe toda uma ciência em termos de manuseio do barro e de modelagem da cerâmica, pois esses ensinamentos foram passados por seus antepassados e estão sendo seguidos até hoje. Durante toda a oficina percebeu-se o grau de respeito por parte dos participantes Apurinã pelos mais velhos. Para esse povo o que o mais velho e o pajé falam é lei. Após a conversa do seu Antônio Apurinã, começou o processo de modelagem da argila, tendo sempre a orientação da Leia Carlos Kathuna Apurinã, que aprendeu a trabalhar com a cerâmica com sua avó. O processo de fabricação da cerâmica apurinã inicia com a limpeza do barro ou argila. Em seguida faz-se a modelagem, no dia seguinte a raspagem para que a cerâmica fique mais leve e lisa, sem ondulações. Após esse processo a cerâmica seca por quatro a cinco dias e, em seguida, ela é queimada. A oficina de cerâmica apurinã teve como resultado uma maior conscientização em relação à preservação dessa prática milenar, pois, como o objetivo do COMIN é trabalhar a revitalização da língua Apurinã, os Apurinã da T.I Kamicuã entenderam que tudo o que se refere à sua língua se refere ao seu modo de vida. Assim, produzir cerâmica apurinã é reproduzir a língua, a história e a educação indígena apurinã.