CAMPOS DE TRABALHO
Região Noroeste do Rio Grande do Sul

Povos:

O campo de trabalho do COMIN no noroeste do Rio Grande do Sul atua junto aos povos Kaingang e Guarani. As atividades se organizam a partir da Terra Indígena Guarita, que abrange uma área de 23.406 ha distribuída entre os municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco. Também é prestada assessoria a outras comunidades indígenas na região e são desenvolvidas atividades junto à sociedade envolvente, como as comunidades e paróquias da IECLB do sínodo Noroeste Rio-grandense.

Os povos Guarani e Kaingang constituem a segunda e a terceira maior população indígena no Brasil, sendo ocupantes tradicionais do bioma da Mata Atlântica. O povo Kaingang está presente em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tendo a maior concentração populacional neste último estado. Falantes do tronco linguístico Macro-Jê, organizam-se como uma sociedade dual, dividida em metades exogâmicas (Kamé e Kairu) que se opõem e se complementam. Em termos demográficos, a comunidade Kaingang tem o maior número de falantes da língua materna no Brasil.

O povo Guarani pertence ao tronco linguístico Tupi, vivendo nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Entre as características culturais mais evidentes, destaca-se a centralidade e força da língua, espiritualidade tradicional, valorização e compreensão de codependência com a floresta preservada, o cultivo de espécies de plantas tradicionais para consumo próprio e a reciprocidade entre as diferentes aldeias.

 

Histórico:

O Rio Grande do Sul é ocupado por povos indígenas a cerca de sete mil anos, sendo que os atuais povos remanescentes dão continuidade à ocupação tradicional. Somente nos últimos cinco séculos, iniciou e intensificou-se a ocupação e colonização por imigrantes, sobretudo pessoas europeias. O estado ocupa a décima colocação entre os estados brasileiros com maior população indígena, porém as áreas demarcadas às comunidades correspondem a 0,3% de seu território. A região noroeste é território de ocupação tradicional dos povos Guarani e Kaingang e teve a colonização pela sociedade não indígena apenas nos últimos dois séculos. Neste processo histórico, as comunidades indígenas sofreram genocídio, expropriação de seus espaços, migrações e assimilação social forçada. Apesar disso, elas ainda resistem com o domínio da língua própria, características culturais e organização social, religiosidade, uso e manejos de plantas na nutrição e medicina tradicionais. Suas fronteiras demográficas e agrícolas se constituem, predominantemente, e devido à migração e colonização europeia, de famílias de origem germânica e ítala e, atualmente, configura-se como um dos espaços convencionais dedicados à lógica do agronegócio. Por isso, as comunidades indígenas estão próximas ao cultivo de monocultura da soja, milho e trigo, com uso intensivo de agrotóxicos, o que interfere diretamente na redução de seu cultivo de subsistência e, sobretudo, na preservação da agrobiodiversidade.

A TI Guarita foi criada em uma primeira leva de demarcações feitas pelo governo estadual no período de 1910 a 1920. É um território Kaingang que abriga as famílias Guarani. O trabalho missionário da IECLB na TI iniciou na década de 1960, vinculado à Paróquia de Tenente Portela. A ação missionária baseou-se, inicialmente, na conversão religiosa, com instalação de escola bilíngue, atendimento de enfermaria e implantação de técnicas agrícolas ocidentais. Nessa fase, não se considerava a implicação das ações missionárias sobre a cultura, o simbolismo e o modo de vida dos povos.

O COMIN se faz presente na TI Guarita desde a sua criação, em 1982, sendo este o maior tempo de atividade contínua em um lugar. A partir da década de 1980, com a constituição do COMIN, há uma compreensão e uma atuação diferenciada da prática missionária das décadas anteriores. Evento marcante foi a expulsão da equipe do COMIN que residia na Missão Guarita, em 1985. Nas atividades desenvolvidas nas décadas em diante, priorizaram-se as áreas básicas – saúde, educação, organização indígena, sustentabilidade e identificação, demarcação e garantia das terras indígenas – junto aos povos Kaingang e Guarani, tanto na TI Guarita como em outras terras indígenas no norte e noroeste gaúcho.

 

Áreas de atuação:

As ações do COMIN entre os povos Kaingang e Guarani na TI Guarita se dividem em três eixos: saúde e segurança alimentar, fortalecimento cultural e assessoria em direitos constitucionais para povos indígenas. Além disso, existe a promoção do diálogo intercultural através da organização de encontros entre mulheres indígenas e da IECLB.

No que se refere à saúde e segurança alimentar, junto aos grupos organizados de mulheres Kaingang, até o ano de 2018, houve o acompanhamento de nutrizes e gestantes e suporte a visitas hospitalares; realização de oficinas de preparo de compostos de ervas medicinais e de cultivo e preparo de alimentos; nutrição, prevenção e combate à subnutrição infantil; e o apoio ao direito à saúde pública e diferenciada, valorizando a socialização de saberes através do estímulo às suas práticas tradicionais de saúde e do incentivo ao uso de ervas medicinais e nutricionais e da utilização de produtos cultivados nas hortas; além do estabelecimento de parcerias de trabalho com órgãos municipais e indigenistas.

O fortalecimento cultural se expressa em material escolar para o ensaio da língua materna; em rodas de conversa com anciãs e anciãos e alunas e alunos da comunidade escolar, possibilitando oficinais de artesanato e orientações acerca dos valores e comportamentos na cultura indígena; diálogo com pais, mães, alunas e alunos sobre temas pertinentes à educação; e realização de caminhadas ecológicas, onde é possível expor o conhecimento das pessoas mais velhas sobre o meio ambiente. Quanto à educação, também há apoio à comunidade escolar indígena e à formação universitária das e dos indígenas, para que seja valorizada e garantida uma educação específica que contemple a realidade dos povos Kaingang e Guarani no Rio Grande do Sul.

Em relação à assessoria em direitos constitucionais, o COMIN promove encontros sobre direitos relacionados à saúde e educação indígenas, além de prestar apoio à garantia das terras indígenas, demarcação de novos espaços territoriais e garantia de sustentação das comunidades e da vigilância dos milites das áreas demarcadas.

Atualmente, há ênfase na atuação junto ao povo Guarani da aldeia Tekoá K’aguy Porã, município de Erval Seco, no apoio ao fortalecimento cultural, que perpassa o cultivo de sementes crioulas, com princípios de agroecologia, o cuidado com as plantas frutíferas nativas e na perspectiva do fortalecimento e respeito à espiritualidade Guarani. No diálogo intercultural, há formação de professoras e professores e direções escolares não indígenas e promoção da medicina tradicional junto às anciãs e aos anciões Kaingang.  

 

Equipe:

Assessora: Noeli Falcade (pedagoga e pós-graduada em Educação, Diversidade e Cultura Indígena)

     E-mail: nfalcade@yahoo.com.br

     Telefone: (55) 99999-6215

     Tenente Portela/RS

 

PROJETOSver todos