CAMPOS DE TRABALHO
PAPIRON RONDONIA

Contexto

O PAPIRON é a continuidade do trabalho do COMIN em Rondônia. Em dezembro de 2004, depois de passar por um longo processo de avaliação, o modelo de atuação do COMIN/PROARI (Projeto de trabalho com os povos do Parque Aripuanã) foi encerrado, a equipe foi dissolvida e um novo processo de construção de trabalho entre povos indígenas na Rondônia foi iniciado em parceria explícita com o Sínodo da Amazônia. A partir de julho de 2005, a pastora e jurista Jandira Keppi e o pastor e enfermeiro Nelson Deicke passaram a morar em Ji-Paraná, para construir um novo modelo de trabalho, atendendo as demandas jurídicas e sanitárias que já vinham se anunciando.

Como não atua mais no Parque Aripuanã o nome do projeto foi mudado para PAPIRON – Projeto de Assessoria a Povos Indígenas em Rondônia - e tem como base um trabalho com os povos da T.I. (Terra Indígena) Igarapé Lourdes. Nela moram os povos Arara e Gavião, com uma população aproximada de 850 pessoas, em 12 aldeias.

Originalmente os povos Arara e Gavião não viviam na mesma terra. Os Arara sempre moravam nesta região do Igarapé Lourdes e em quase toda região de Ji-Paraná. Com a colonização este povo foi duramente atingido por doenças. Em 1976, quando suas terras foram demarcadas, só havia 95 pessoas ( Hoje são 230). Os Gavião ocupavam tradicionalmente às margens do Rio Branco, ao Norte da T.I. ocupada pelos Zoró, no Mato Grosso. Por volta dos anos 40, pressionados por fazendeiros, vieram para a Serra da Providência. Por ocasião da demarcação da T.I. Igarapé Lourdes, a FUNAI só incluiu 3 das então 27 aldeias Gavião, ficando as demais nas mãos dos fazendeiros. Hoje, os Gavião estão reivindicando este espaço por ser sua terra tradicional.

A T.I. Igarapé Lourdes já sofreu várias invasões de madeireiros, fazendeiros, caçadores e pescadores. Na década de 80 havia mais de 350 famílias de agricultores dentro da área. Atualmente a T.I. está desintrusada, mas ainda sofre ameaça da construção de uma barragem no rio Machado, que está em fase de inventário, de madeireiros e da entrada de gado dos fazendeiros pelo lado do Mato Grosso.

Áreas de atuação

O trabalho tem por objetivo a formação e informação na área dos direitos indígenas e da saúde, o apoio à organização própria, à educação específica e diferenciada, ao controle social nas políticas públicas e a pequenas iniciativas de etnosustentabilidade, visando ainda contribuir no diálogo intercultural e inter-religioso, junto à sociedade do entorno e no Sínodo da Amazônia.

Assessoria em saúde

O processo de formação e informação na área da saúde preventiva se realiza através de cursos oferecidos às pessoas das aldeias Arara e Gavião e deles participam jovens, adultos e pessoas de mais idade. A participação das mulheres têm sido significativa nestes encontros com muito interesse sobretudo quando se aborda questões relacionadas à saúde da mulher e da criança. Os temas são abordados de forma expositiva-dialogada, de modo que pessoas que não sabem ler e escrever também podem participar dos debates. Nas reflexões busca-se sempre abordar a relação da qualidade de vida com o equilíbrio do ecossistema e a preservação dos recursos naturais de fauna e flora da T.I. importantes para a sustentabilidade das gerações futuras.

Assessoria em organização e articulação

O apoio à organização se dá através de assessoria a reuniões e assembléias indígenas, discussões sobre a política indigenista nas aldeias, formas de participação e intervenção nas políticas públicas, assessoria na formação e regularização de associações indígenas, apoio e assessoria na discussão e resistência contra a construção de barragem no Rio Machado – se construída alagará grande parte da Terra Indígena.

Aproveitamos espaços em jornais, programas de rádio, escolas e igrejas para divulgar a questão indígena, com participação de representantes das aldeias onde se abre espaço para que eles mesmos possam falar dos seus problemas, conquistas e da sua cultura, como forma de contribuir para uma convivência mais respeitosa.

Assessoria em direito

Conhecer seus direitos e saber como exercê-los é um dos objetivos da formação oferecida às comunidades Arara e Gavião. Esse processo de formação e informação perpassa os ramos dos direitos indígenas, direito ambiental e direitos humanos em geral e tem sido realizado através de cursos, oficinas e discussões práticas sobre violações de direitos.

Parcerias

No âmbito do Sínodo da Amazônia temos o Grupo de Apoio aos Povos Indígenas, formado por obreiros do COMIN que atuam no Norte e representantes das comunidades luteranas, onde refletimos sobre o trabalho junto aos povos indígenas, avaliamos e encaminhamos a realização de seminários e eventos para luteranos e outros envolvendo a temática indígena.

Em Ji-Paraná temos a parceria da Pastoral Indigenista do CIMI, da Igreja Católica, com a qual fizemos algumas atividades em conjunto além de algumas parcerias mais pontuais - em algumas atividades- de órgãos governamentais como, por exemplo, a SEDUC e o IBAMA.

No todo, o trabalho é feito com a filosofia de contribuir para que os povos indígenas que recebem a nossa assessoria possam crescer em termos de organização e capacidade de articulação, para defesa de seus direitos e interesses e que possam aumentar a sua auto-estima de ser índios.

Experiências com o povo Gavião em Rondônia

Havia um enorme clima de alegria no Tapiri... As pessoas dali estavam todas felizes. Depois de andar  cerca de 8 a 10 Km diários, durante uma semana, para coleta de castanha e óleo de copaíba, dentro da mata, nem se notava a expressão de cansaço desta atividade no rosto das pessoas. Pelo contrário, o que se percebia era uma animação muito grande, que chegava a ser contagiante...

No interior do Tapiri, à tardinha, sentia-se o cheiro da carne de caça moqueando nos giraus. Eram três fogos, das famílias que ali estavam. Algumas pessoas descansavam nas redes, outras preparavam instrumentos musicais de bambu e algumas preparavam a janta. Todas estavam muito alegres e animados, conversando bastante, sobre o que fizeram, os bichos que viram na mata, histórias dos parentes e antepassados que ali moraram...

Depois da janta, deitados nas redes,  escutamos histórias antigas contadas por Moisés (o mais idoso do grupo). Ele contava histórias do povo quando morou ali onde estávamos, alguns contatos com outros povos indígenas e mais tarde com os não índios. As pessoas escutavam e por vezes interferiam, participando da narração, alguns com complementações, outros com perguntas... Estava só escutando e pouco entendia, porque não sei a língua Tupi-mondé, mas percebia claramente que  as pessoas estavam atenciosas à narrativa... Chegavam a participar dela... Escutei até adormecer... Depois acordei e percebi que Moisés ainda estava falando e algumas pessoas ainda escutavam suas histórias, outros já tinham adormecido.

No dia seguinte, levantamos cedo, tomamos macaloba de milho mole e depois fomos carregar a castanha coletada para a beira da estrada. Durante este trabalho, os Gavião me falaram do interesse de ocupar aquela parte de sua terra tradicional que ficou fora da demarcação oficial - ao lado do Tapiri onde dormimos havia alguns pés de banana, marca de maloca antiga onde o Pai do Gavião Moisés morou. É a única parte da terra tradicional dos Gavião perdida no processo de demarcação que ainda está coberta de mata. As outras partes já foram transformadas em pastagens- como é comum na Amazônia, onde o boi vai tomando o espaço das populações tradicionais e da floresta.

O povo Gavião perdeu a maior parte do seu território tradicional, porque foram sendo empurrados pelos seringalistas e depois pelos fazendeiros para a área do povo Arara. Atualmente moram junto com o povo Arara na Terra Indígena Igarapé Lourdes e junto com eles estão reivindicando suas terras tradicionais perdidas.

Os Gavião e os Arara se unem para discutir sobre a importância de manter suas culturas nas aldeias, defender seus direitos e ficar alertas à invasão de suas terras por fazendeiros. Barraram a construção de uma hidrelétrica no Rio Machado em 1983 e buscam se manter informados e unidos sob a ameaça deste projeto que causaria fortes impactos na sua vida.

O COMIN iniciou um trabalho com estes povos de Rondônia no segundo semestre de 2005, assessorando sua organização, fazendo cursos de formação e informação sobre direitos indígenas e saúde preventiva, refletindo junto com eles sobre o uso dos recursos ambientais de suas terras de modo sustentável, contribuindo com pequenas iniciativas de etnosustentabilidade das aldeias, buscando o diálogo sobre a questão indígena e sua cultura dentro da Igreja Luterana e sociedade envolvente. Queremos sobretudo ser um parceiro de apoio a estes povos e com eles também temos muito a aprender em termos de humanidade e alegria de viver...

Informações gerais

Assessora
Advogada e Pastora Jandira Keppi

Endereço
Rua Santa Isabel, 798 - Bairro Jardim Presidencial
CEP: 76901-064- Ji-Paraná/RO
Fone: (69) 3423-6212
E-mail: Jandira: jandirakeppi@hotmail.com
 

Povos
Arara, Gavião e assessorias mais pontuais a outros povos de Rondônia.

Áreas de atuação
Saúde, assessoria jurídica, educação, organização, etno-sustentabilidade e trabalho com comunidades da IECLB e sociedade envolvente.

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